O que perguntar na entrevista, e o que cada resposta revela
Quando ele pergunta se você tem alguma dúvida, é a única hora em que você está no comando. Quatro perguntas para levar, e como ler as respostas.
A conversa foi bem. Você respondeu o que sabia, contornou o que não sabia, e aí vem a frase que fecha toda entrevista: "alguma pergunta pra mim?". Você diz que está tudo claro, agradece e desliga.
Acabou de jogar fora a única parte da entrevista em que você estava no comando. Saber o que perguntar na entrevista não é educação, é a sua chance de descobrir se aquele emprego é bom antes de aceitar, e de mostrar como você pensa quando ninguém está te testando.
Por que a sua pergunta também é avaliada
Quem entrevista passa o dia ouvindo respostas ensaiadas. A pergunta que você faz no fim é o único momento em que ele vê você raciocinando sem roteiro, sobre um assunto que você escolheu. É por isso que ela pesa.
Uma pergunta sobre code review diz que você já trabalhou em time e sabe onde dói. Uma pergunta sobre "o clima da empresa" diz que você não sabia o que perguntar. Nenhuma pergunta diz que você não se importa o suficiente para ter uma dúvida.
E tem a parte que ninguém te conta: entrevista é mão dupla de verdade. Você vai passar oito horas por dia nesse lugar. As respostas que você recebe agora são a única informação honesta que você vai ter antes de assinar.
A regra que define uma boa pergunta
Uma boa pergunta é aquela que só aquela pessoa, naquele time, consegue responder. Se a resposta está na página da vaga, no site da empresa ou no LinkedIn, a pergunta está queimada. Se a resposta é obrigatoriamente elogiosa ("o clima é ótimo"), a pergunta não serve. Pergunte sobre o funcionamento, não sobre a impressão.
As perguntas, e o que cada resposta revela
Escolher pergunta por lista pronta é o que produz aquele silêncio constrangido. Escolha por informação que falta. Abaixo estão cinco terrenos, com a pergunta, como soa uma resposta boa e o que ela revela quando vem ruim.
1. Como o trabalho realmente acontece
A pergunta: "Como é o caminho de uma tarefa aqui, desde que ela é decidida até estar na mão do usuário?"
É a pergunta mais barata e a que mais devolve. Ela cobre processo, ferramenta, autonomia e maturidade de engenharia numa resposta só.
Boa: "A gente refina na segunda, quem pega abre um PR com testes, o review é obrigatório e sai pra produção no mesmo dia. Deploy é automático, e a gente tem feature flag pro que é arriscado."
Sinal de alerta: "Depende muito. Cada um faz de um jeito." Traduzindo: não existe processo, e você vai descobrir as regras errando.
2. Como se mede quem foi bem
A pergunta: "Daqui a seis meses, o que precisa ter acontecido para você olhar e dizer que essa contratação deu certo?"
Você está pedindo o critério de avaliação antes de ser avaliado. Quem tem clareza responde na hora, com coisa concreta.
Boa: "Você estar pegando tarefa de complexidade média sem precisar de acompanhamento, e ter tocado pelo menos uma entrega ponta a ponta."
Sinal de alerta: "A gente espera proatividade e alguém que vista a camisa." Ninguém sabe o que você deveria entregar, e a sua avaliação vai ser sobre humor, não sobre trabalho.
3. A saúde do time
A pergunta: "Por que essa vaga está aberta?"
Curta, direta e legítima. Existem três respostas possíveis, e as três te ensinam algo: o time cresceu, alguém foi promovido, ou alguém saiu.
Boa: "A pessoa que fazia isso virou tech lead de outro time, então a cadeira abriu." Ou: "Fechamos um contrato novo e precisamos de mais duas pessoas."
Sinal de alerta: resposta vaga sobre "reestruturação", ou a terceira pessoa a sair da mesma cadeira em um ano. Se a resposta for que alguém saiu, vale a segunda pergunta: "o que fez ela sair?".
4. O que trava o time hoje
A pergunta: "Qual é a maior dor técnica de vocês hoje, a que mais atrapalha entrega?"
Todo time tem uma. Quem responde rápido e sem defensiva está sendo honesto e provavelmente tem um plano. Quem diz que não tem nenhuma está te escondendo o sistema legado que você vai herdar na primeira semana.
Boa: "Nosso monolito tem uma parte de cobrança que ninguém quer tocar. Está no plano quebrar isso esse semestre, e quem entrar vai pegar um pedaço."
Sinal de alerta: "Nada demais, está tudo bem organizado." Ou nenhuma dor, ou nenhuma sinceridade. As duas hipóteses são ruins.
5. O que acontece a seguir
A pergunta: "Quais são as próximas etapas, e em quanto tempo eu tenho um retorno?"
Não é sobre ansiedade. É a informação que decide o que você faz na semana seguinte, e o que te dá o direito de cobrar sem parecer inconveniente.
Um modelo para preencher antes da entrevista
Leve quatro perguntas escritas, não dez. Uma de cada terreno que mais te importa, adaptada àquela vaga. Preencha os colchetes com o que você leu sobre a empresa.
Sobre o trabalho: "Como é o caminho de uma tarefa aqui, do refinamento até produção?"
Sobre mim na vaga: "Daqui a seis meses, o que precisa ter acontecido para essa contratação ter dado certo?"
Sobre a vaga: "Por que essa posição está aberta?"
Específica dessa empresa: "Li que vocês [o que você descobriu: migraram para X, lançaram Y]. Isso muda o que o time vai tocar nos próximos meses?"
A quarta é a que separa você de todo mundo. Ela prova que você gastou vinte minutos olhando a empresa antes de entrar na chamada.
Dois exemplos completos
Exemplo 1: pessoa júnior, vaga em startup pequena
Entrevistador: "Bom, é isso. Alguma pergunta pra mim?"
Você: "Tenho três. A primeira: como é o caminho de uma tarefa aqui, desde que ela é decidida até chegar em produção?"
(depois da resposta) "Entendi. E quem está começando, como você, entra pegando o quê? Pergunto porque queria entender quanto de review eu vou ter no começo."
(depois da resposta) "Última: vocês são oito pessoas no time de engenharia. Daqui a seis meses, o que precisa ter acontecido pra você olhar e falar que essa contratação deu certo?"
Repare no que essas três fazem juntas: mostram que você quer aprender, que você sabe que vai precisar de apoio, e que você pensa em entrega. Nenhuma delas exige experiência que você não tem.
Exemplo 2: pessoa sênior, vaga em empresa grande
Você: "Você comentou que o time cuida da plataforma de pagamentos. Qual é a maior dor técnica de vocês aí hoje, a que mais atrapalha entrega?"
(depois da resposta) "Faz sentido. E quando alguém propõe mexer nisso, como é essa decisão? Quero entender quanta autonomia técnica o time tem de verdade, versus o que precisa subir pra arquitetura."
(depois da resposta) "E por que essa vaga abriu agora?"
A segunda pergunta é a mais importante das três, e é a que quase ninguém faz. Vaga sênior em empresa grande costuma frustrar não por causa da tecnologia, e sim porque a decisão técnica mora três andares acima. Melhor saber agora.
Como adaptar, por quem está do outro lado
A mesma pergunta feita para a pessoa errada desperdiça a sua vez. Recrutador não sabe como é o code review, e o tech lead não decide a sua faixa salarial.
| Quem está entrevistando | Pergunte | Não pergunte |
|---|---|---|
| Recrutador (triagem) | Etapas do processo, prazo de retorno, faixa salarial, modelo de trabalho | Detalhe técnico do time |
| Tech lead ou pessoa dev | Caminho da tarefa, review, dívida técnica, quanto se testa | Benefício e política de férias |
| Futuro gestor | Critério de sucesso em seis meses, como é a avaliação, por que a vaga abriu | Pergunta de prova para testar o conhecimento dele |
| Fundador ou diretoria | Para onde o produto vai, o que muda no time se der certo | Processo do dia a dia, que ele não acompanha |
Os erros que derrubam uma pergunta boa
- Perguntar o que está na página da vaga. Mostra que você não leu, e apaga o resto da conversa.
- Perguntar sobre clima e cultura. Só existe uma resposta possível, e ela não te informa nada. Pergunte sobre funcionamento e tire a conclusão sozinho.
- Fazer pergunta de prova. Tentar encurralar o entrevistador para parecer inteligente é o jeito mais rápido de ser lembrado pelo motivo errado.
- Falar de salário com quem não decide. Salário se pergunta, e cedo, mas com o recrutador. Com o tech lead, você só cria constrangimento.
- Fazer dez perguntas. Vira interrogatório e a entrevista estoura o horário. Três ou quatro, e pare quando a conversa fechar.
- Não anotar nada. Você fez a pergunta e esqueceu a resposta antes de comparar com a outra proposta. Anote na hora.
- Não perguntar nada. O erro mais comum de todos, e o único que não tem desculpa.
Como treinar isso antes de valer
Ler uma lista de perguntas não prepara ninguém. O que trava na hora não é a falta de ideia, é a naturalidade: fazer a pergunta sem soar decorado, ouvir a resposta e emendar a segunda pergunta em cima do que a pessoa acabou de dizer.
Isso só melhora falando em voz alta. No aproVAGA você faz uma entrevista por voz com uma entrevistadora de IA que conhece a vaga que você colou, e o fim da conversa acontece como acontece de verdade: ela pergunta se você tem alguma dúvida, e você tem que responder ali.
No relatório, esse momento aparece separado. A pergunta que você fez não entra na média da sua nota, porque não é resposta técnica, e sim um retorno sobre o que aquele momento soma numa entrevista real. Você vê como soou antes de soar assim na entrevista que importa.
Perguntas frequentes
Quantas perguntas devo fazer?
Três ou quatro, e leve mais duas de reserva. Se a conversa já cobriu duas delas, faça as que sobraram e diga que o resto foi respondido. Isso é melhor do que repetir o que já foi falado só para cumprir a lista.
Posso perguntar sobre salário?
Pode, e quanto antes melhor, mas com o recrutador. Na primeira conversa é normal e esperado perguntar a faixa da vaga. Com o time técnico, deixe para depois.
E se eles responderem tudo antes de eu perguntar?
Diga isso, e faça uma pergunta de segundo nível sobre algo que já foi falado. Algo como "você comentou que o deploy é diário; o que ainda dá trabalho nisso?". Mostra que você ouviu, que é melhor do que qualquer pergunta nova.
Posso ler as perguntas de um papel?
Pode, e em chamada de vídeo é quase invisível. Ninguém desconta ponto de quem se preparou. O que pega mal é ler a pergunta e não ouvir a resposta.
Vale perguntar por que a última pessoa saiu?
Vale, se a vaga abriu por saída. Pergunte com naturalidade, sem tom de investigação. A reação da pessoa costuma dizer mais do que a resposta.
Para levar
- Boa pergunta é a que só aquela pessoa consegue responder.
- Leve quatro escritas, sendo uma específica daquela empresa.
- Pergunte funcionamento, não impressão. "Como funciona" no lugar de "como é o clima".
- Adapte a quem está do outro lado: recrutador, tech lead e gestor sabem coisas diferentes.
- Anote as respostas. Elas são o que você tem para decidir se aceita.
- Não perguntar nada é o único erro sem desculpa.
Se a sua entrevista é amanhã, veja também como preparar a entrevista em 24 horas, e o que fazer quando você não sabe a resposta. Os outros guias do aproVAGA cobrem o resto da conversa.